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O espião

Luis Fernando Verissimo

Ninguém sabia o que o Abreu fazia. Ele frequentava o grupo há tempo, parecia não ter problema de dinheiro, era uma pessoa cordial e discreta – e era um mistério.

Especulações sobre o Abreu não faltavam.

- A família é muito rica. Ele vive de rendas.

- Ouvi dizer que é o dono de todos os motéis da Zona Norte.

- Ele é paupérrimo. Só se veste assim para conviver conosco. Gasta tudo o que tem para manter as aparências e mora numa favela. Ou ele já convidou alguém pra ir na casa dele?

De fato, ninguém nunca fora à casa do Abreu. Mas ele não parecia ser pobre.

Gostava de fotografia, e estava sempre com o que havia de mais moderno em matéria de equipamento fotográfico. Uma vez mostrara ao grupo uma câmera em miniatura que acabara de comprar. Um isqueiro que também fotografava. E contara – numa das raras vezes em que revelara alguma coisa a seu respeito – que andava muito pelo interior do Brasil, fotografando.

- Aquele era o seu trabalho? Fotógrafo?

- Não, não – disse o Abreu. E não disse mais nada.

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Um dia viram o Abreu falando com três estrangeiros no saguão de um hotel.

Falavam em inglês. Mas quando perguntaram ao Abreu quem eram os estrangeiros que estavam com ele, ele disse: “Que estrangeiros? Que hotel?”. E garantiu que não era dele. O mistério aumentava.

- Ele é um espião – disse alguém.

- CIA – disse outro.

CIA? Seria possível?

- Ele deve estar gravando todas as nossas reuniões – disse o Caco.

- Mas nas nossas reuniões só se diz bobagem – protestou a Silvinha.

- Ah, é? E o que se fala do Bush?

- Mas todo mundo fala do Bush!

O Michel tinha outra teoria.

- Eles estão gravando todos os seus trocadilhos, Moreira. Quando chegar a um ponto insuportável, os Estados Unidos nos invadem.

- CIA o que Deus quiser – disse o Moreira.

Mas nem todos riram ou gemeram. O Caco estava pensativo. Disse:

- Aquela câmera em miniatura nunca me enganou.

O Abreu era um espião. Tinha que ser.

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Houve muita animação no grupo quando a Clarinha começou a namorar o Abreu. Finalmente, alguém ia penetrar na intimidade do homem. Apesar da Clarinha dizer “Não é nada, não é nada”, ela estaria em posição de desvendar o mistério do Abreu.

As primeiras informações da Clarinha foram reveladoras. Abreu não morava numa favela. Tinha um bom apartamento, com uma sala que mantinha trancada e não explicara para o que servia. Do que ele vivia? Clarinha ainda não sabia. Ouvia ele telefonar muito para um banco, para saber se depósitos do exterior já tinham sido feitos. E era, na intimidade, o mesmo homem cordial e discreto que todos conheciam. A Clarinha podia até se apaixonar por ele. E um dia anunciou que o Abreu pedra para ela ir morar no seu apartamento. O que a impediria, era claro, de dar mais informações sobre o namorado, por uma questão de lealdade.

- Só descobre o que tem na sala trancada! – implorou o Caco.

Clarinha não transigiu.

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Mas Abreu e Clarinha continuaram frequentando o grupo, e uma noite, na cozinha da Silvinha, a Clarinha não se conteve e disse que precisava contar para alguém. O quê? As mulheres estavam todas na cozinha, os homens todos na sala. “Conta, mulher” disse a Silvinha. E a Clarinha contou. Descobrira o que tinha dentro da sala trancada. Era uma sala de comunicação. De onde o Abreu mandava seus despachos e suas fotos, para o país estrangeiro que fazia depósitos na sua conta. Sim, o Abreu era mesmo um espião. Da Nova Zelândia! Era o agente secreto da Nova Zelândia no Brasil! As mulheres tinham que jurar que não iam contar para ninguém, pois a vida do Abreu corria perigo. Todas juraram.

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Não se sabe quem falou, mas poucos dias depois o Abreu avisou a Clarinha que iria embora. Estava sendo retirado do Brasil, pois sua condição de agente secreto fora descoberta. Se a Nova Zelândia não o retirasse, ele seria preso pelo governo brasileiro. Clarinha foi encarregada de transmitir as despedidas de Abreu ao resto do grupo. Ele sentia, se tinha desiludido alguém. Era um patriota, espionara o seu país por dinheiro, exclusivamente por dinheiro. Todos ficaram muito sensibilizados com a mensagem do Abreu e passou algum tempo antes que começassem a se perguntar por que, exatamente, a Nova Zelândia precisava de um agente secreto no Brasil. O mistério de Abreu, na verdade, não se resolvera. O mistério do Abreu aumentara ainda mais.


Domingo, 29 de agosto de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.